Carlos Abrantes

“Como o Ratinho do Pragal chegou ao cimo da montanha”


Filho de uma cozinheira e de um serralheiro mecânico da Lisnave, começou a trabalhar aos 16 anos. Andou a vender a 'Enciclopédia Luso-Brasileira', em Almada, e casas e apartamentos, entre Lisboa e Cascais. Estava na EDP quando o destino lhe bateu à porta. Na Oriflame, multinacional sueca de cosméticos, começou pelo armazém. Agora é o director geral e, a partir do seu quartel-general no Cacém, comanda um exército de 40 mil vendedores espalhados pelo País.

A frase "a vida já me deu mais do que eu esperava dela" pode soar banal em muitas bocas, mas não na de Carlos Abrantes, gestor nascido há 46 anos no Pragal, filho do meio da ninhada de cinco que são o fruto do matrimónio entre uma cozinheira analfabeta e um serralheiro mecânico da Lisnave.

"Costumo dizer que sou o mais perfeito dos cinco por ser o do meio. Nos primeiros dois, os meus pais ainda não tinham experiência. Nos dois últimos já estavam cansados", graceja o director-geral da filial portuguesa da Oriflame, uma multinacional de cosméticos sueca.

Carlos cresceu depressa e sempre levou uma vida dura, mas ele até prefere que seja assim: "Não gosto de vidas fáceis. A vida fácil amolece-nos."

Não foi fácil o caminho que teve de percorrer para chegar ao topo de uma empresa que factura 30 milhões de euros e cresce 10% ao ano, onde comanda um quartel-general permanente de 42 pessoas, instalado no Cacém, e um exército de 40 mil "assessores", o jargão interno para designar os vendedores, dos quais 85% são mulheres.
 
Tinha 16 anos e andava na Escola Técnica Emídio Navarro quando teve de começar a trabalhar. Não se queixa: "Os meus irmãos mais velhos começaram aos 14…" Os salários na Lisnave começaram a pingar a conta-gotas e era curto o dinheiro que a mãe trazia para casa, trabalhando nas limpezas, às escondidas do pai, que tinha tanto de machista como de comunista.

Entre os 16 e os 19 anos, desembrulhou-se bem vendendo os austeros e pesados volumes da Enciclopédia Luso-Brasileira como se fossem pãezinhos frescos, enquanto nos tempos livres jogava futebol no Almada, onde foi contemporâneo de Oceano.

Com os dotes naturais de vendedor já bastante amadurecidos, aos 19 anos atravessou o Tejo e foi trabalhar para uma imobiliária em Lisboa. As comissões eram inferiores em percentagem às que ganhava nos livros, mas bastante superiores em montantes.

Na tropa, feita na Escola Prática de Administração Militar, desagradou-lhe terem-no escolhido para cozinheiro - curiosamente a especialidade que o pai tivera e a profissão que a mãe desempenhava no refeitório principal da Câmara de Almada. "Deus escreve direito por linhas tortas", diz Carlos, confidenciando que quando ia de fim-de-semana levava do Lumiar o saco cheio de víveres para abastecer a magra despensa da casa materna em Almada.

O encontro que tinha marcado com o destino deu-se no emprego seguinte, na direcção de exploração da EDP, após a dactilógrafa Clarisse ter sido convidada para secretária da mulher brasileira do embaixador sueco em Lisboa, Beatriz Teixeira Gomes, que estava a começar a montar um negócio de venda dos cosméticos Oriflame.

Beatriz precisava de um chefe de armazém e Clarisse recomendou-lhe o seu amigo e colega Carlos, que disse logo que sim porque ia ganhar mais dez contos do que na EDP.

O armazém, em Carnaxide, tinha 11 m2. Carlos era o funcionário n.º 3 da empresa. Os cosméticos eram a única coisa que chefiava. Meteu mãos à obra. À noite estudava Gestão. De dia atendia os pedidos de encomenda e fechava as caixas que ia expedir aos Correios de Linda-a-Velha.

Cresceu com a empresa até que há 13 anos Beatriz vendeu o negócio aos suecos, que convidaram para director-geral o miúdo que, em homenagem à sua esperteza, era conhecido por Ratinho nas ruas do Pragal - e que confessa que se tivesse de escolher um vício, esse, seria o trabalho.

Fonte: DN

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